Os trabalhos e os dias
Não me parece que hoje seja um dia diferente. Aliás, dias diferentes são coisa que rareia cada vez mais nesta terra de santa maria.
Em todo o caso, hoje bebi duas bicas, fui a Lisboa e regressei para almoçar, fui à consulta do SNS, aviei receita respectiva na Pharmacia, apliquei a primeira dose de pomada, comi um pastel de nata, andei 4 km, naveguei na net, postei, mimei e fui mimado, contribuí para a limpeza da piscina, viouvi TV e rádio, comi uma excelente dourada (infelizmente acompanhada a água mineral), li os jornais online, continuo a leitura do último de Lídia Jorge sem saber quanto aguentarei. Verei o telejornal, irei ao cinema, beberei o meu whisky vendo o dr. House na TV por cabo e irei fazer óó pela 1 da manhã.
Não será pois um dia diferente - embora variado e multiforme. Porque não são estas coisas que fariam diferente o MEU dia.
Mas o sr. Matos teve um OUTRO dia: levantou-se ás 6,30, meteu-se no utilitário, deixou os filhos na escola (15m)e a mulher no supermercado onde é balconista (18m) e demorou mais 45 minutos a chegar ao emprego na João Crisóstomo. Contabilizou diligentemente no seu posto de trabalho, almoçou uma sandes, bebeu 6 bicas, fumou 18 cigarros, meteu-se no utilitário, foi pescar a mulher e os filhos, chegou ás 19,45, leu a correr o jornal do Metro, jantou vendo as notícias na TV, adormeceu na cadeira de orelhas, acordou para dar uma olhadela aos exercícios do filho mais velho e voltou a adormecer até a mulher o levar para a cama, eram 23,40.
Eu e o senhor Matos, afinal, temos dias bem diferentes. Os trabalhos e os dias?
Pois. Os trabalhos de lá, os dias daqui.
A vida é uma porra. Mesmo para os daqui. Por causa dos de lá.
Publicado aqui em 8-5-2007


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